Países africanos estão a tentar reduzir a dependência de doadores e a construir sistemas de saúde mais resilientes. Na Conferência sobre Saúde Pública em África (CPHIA), realizada em Durban na semana passada, Landry Dongmo Tsague, diretor inaugural do Centro de Cuidados Primários de Saúde do Africa CDC, explicou como a inteligência artificial (IA) e as ferramentas digitais se inserem numa transformação digital coordenada com a estratégia continental de IA da União Africana.
O Africa CDC prevê dois níveis de aplicação da IA. O primeiro aplica-se às operações internas do centro — planeamento, relatórios, finanças, compras e monitorização — com o objetivo de simplificar a gestão de dados e criar um repositório central de inteligência sobre doenças que cubra os 1.4 billion habitantes do continente. O segundo nível visa apoiar Estados membros, em especial nos locais comunitários e nos cuidados primários onde muitos surtos começam; aí, a vigilância baseada em eventos pode detectar sinais mais cedo, transmitir dados mais rapidamente e facilitar respostas em tempo real. Tsague apontou o Centro Nacional de Inteligência em Saúde do Ruanda como exemplo de uso da IA para rastrear surtos, apoiar a telemedicina e tomar decisões imediatas.
A propriedade e a proteção dos dados são temas centrais. A União Africana tem um quadro continental de políticas de dados e o Africa CDC está a elaborar um Quadro de Governança de Dados de Saúde Continental para garantir recolha, armazenamento e uso ético, além de assegurar a soberania africana sobre os dados. O centro colabora com Estados membros, especialistas e o setor privado para desenvolver orientações, reforçar infraestruturas e recolher dados precisos, oportunos e representativos, de modo a reduzir o viés nos algoritmos treinados com dados de regiões mais ricas.
Tsague também advertiu que as ferramentas digitais não funcionam sem infraestruturas básicas: é necessário eletricidade, água, pessoal e serviços primários a funcionar. Com a redução dos fundos de doadores, a autossuficiência passa pelo financiamento interno. O Green Book do Africa CDC destaca três pilares para um financiamento sustentável:
- Aumentar o investimento doméstico
- Promover o financiamento inovador
- Assegurar boa governação
Palavras difíceis
- inteligência artificial — sistemas que simulam capacidades humanas com computadores
- vigilância — observação sistemática para detetar problemas de saúde
- repositório — local de armazenamento organizado de informação
- soberania — direito de controlar recursos e decisões próprias
- autossuficiência — capacidade de depender dos próprios recursos
- viés — tendência que distorce resultados ou decisões
- telemedicina — consulta médica à distância por meios digitais
- resiliente — capaz de recuperar ou adaptar-se após dificuldadesresilientes
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Perguntas para discussão
- Que benefícios e riscos vê quando se usa inteligência artificial na vigilância de saúde pública em comunidades locais? Explique com razões.
- Como a soberania sobre os dados pode afectar a colaboração entre Estados membros e o setor privado? Dê exemplos possíveis.
- Que medidas um país poderia tomar para aumentar a autossuficiência financeira em saúde, tendo em conta os três pilares mencionados no texto?
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