Matthew M. Kavanagh, diretor do Georgetown University Center for Global Health Policy and Politics, afirma que a verdadeira ameaça atual combina agentes biológicos e desigualdade social. A capacidade científica de sequenciar vírus e desenvolver vacinas é notável, mas não elimina o fato de que pandemias se espalham mais depressa e causam maiores perdas quando sociedades são desiguais.
Ele explica que a desigualdade amplifica a vulnerabilidade: pandemias prosperam onde há marginalização. O HIV seguiu devastando comunidades LGBTQ marcadas pelo estigma e pela criminalização; a COVID-19 alastrou em habitações superlotadas, no trabalho informal e em dormitórios de migrantes, inclusive enquanto os mercados financeiros subiam. Kavanagh cita dados que associam maior distância entre ricos e pobres a maior taxa de mortes por COVID-19 e a mais novas infeções por HIV e mortes por sida.
Parte do problema é política e económica. Governos injetaram grandes somas em investigação para a COVID-19 e o HIV e depois transferiram as tecnologias resultantes para empresas a que foram concedidos monopólios globais. Esses monopólios, protegidos por leis comerciais internacionais, limitam a oferta, elevam preços e prolongam as crises. Além disso, o serviço da dívida drena orçamentos destinados a enfermeiros e laboratórios; quando uma pandemia chega, o espaço fiscal colapsa e as respostas atrasam.
Para romper o ciclo desigualdade–pandemia, Kavanagh propõe mudanças nas finanças, na tecnologia e nas políticas sociais. Entre as medidas estão pausar pagamentos da dívida para nações em crise, criar uma facilidade de financiamento que liberte automaticamente reservas como as do Fundo Monetário Internacional quando uma pandemia for declarada, e partilhar meios de produção em vez de depender apenas de doações. Ele sugere condicionar a transferência de tecnologia a fundos públicos, substituir patentes por prémios e promover uma coligação global de manufatura regional (com fábricas no Brasil para a América Latina, no Quénia, Senegal ou África do Sul para África, e na Tailândia para a Ásia). Também destaca intervenções sociais — rendimento, habitação, nutrição e transferências em dinheiro — que ajudaram a reduzir fome e mortalidade (por exemplo, as prestações às crianças na África do Sul e o Bolsa Família no Brasil). As ideias foram debatidas pelo Global Council on Inequality, AIDS and Pandemics. Kavanagh conclui que o progresso científico pode prevenir surtos, mas só a equidade pode deter as pandemias.
Palavras difíceis
- desigualdade — diferença grande entre ricos e pobres
- marginalização — exclusão de grupos sociais da vida comum
- estigma — marca social negativa que causa discriminação
- criminalização — tornar uma ação punível por lei
- monopólio — controle exclusivo de venda ou produçãomonopólios
- patente — direito legal que protege uma invençãopatentes
- serviço da dívida — pagamento de juros e de capital emprestado
- espaço fiscal — capacidade do governo para gastar dinheiro
- coligação — união de países ou organizações para objetivo comum
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Perguntas para discussão
- Que vantagens e desvantagens vê em pausar pagamentos da dívida para nações em crise durante uma pandemia? Justifique com argumentos do texto.
- Como a partilha de meios de produção, em vez de depender só de doações, pode alterar o acesso a vacinas em diferentes regiões?
- Quais intervenções sociais mencionadas no texto podem reduzir mortalidade numa pandemia? Dê exemplos e explique porquê.
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