Os ossos do pé encontrados em 2009 no Afar Rift, no sítio Woranso-Mille, na Etiópia, têm 3.4 milhões de anos e foram recuperados por uma equipa liderada pelo paleoantropólogo Yohannes Haile-Selassie. O pé, apelidado Burtele, inclui oito ossos e só agora foi ligado com segurança à espécie Australopithecus deyiremeda, após mais de uma década de retornos ao campo. Em 2012 o pé já fora considerado diferente de Australopithecus afarensis, e em 2015 a mesma equipa nomeou A. deyiremeda sem incluir o pé.
A gequímica Naomi Levin, da University of Michigan, amostrou oito dos 25 dentes encontrados em Burtele e realizou análise isotópica para estudar a dieta. Os resultados indicam que A. deyiremeda consumia alimentos de árvores e arbustos, enquanto A. afarensis tinha uma dieta mais ampla, com inclusão de gramíneas tropicais e juncos. A recuperação de uma mandíbula juvenil com dentes de leite e dentes adultos em formação sugere padrões de crescimento semelhantes entre as espécies.
A anatomia do pé de Burtele é mais primitiva do que a da espécie de Lucy: preserva um dedo grande opositor e apresenta dedos mais longos e flexíveis, adaptados ao escalamento. Ao andar sobre duas pernas, A. deyiremeda provavelmente se impulsionava com o segundo dedo, não com o dedo grande. Haile-Selassie interpreta as descobertas como evidência de que a marcha bípede assumiu formas múltiplas nos primeiros hominíneos. Levin acrescenta que os fósseis ajudam a entender como espécies relacionadas coexistiram com dietas e comportamentos diferentes e como isso informa a adaptação a climas em mudança e ao aumento de dióxido de carbono.
Os resultados foram publicados na revista Nature e o trabalho recebeu financiamento da National Science Foundation e da W.M. Keck Foundation.
Palavras difíceis
- paleoantropólogo — cientista que estuda fósseis humanos antigos
- gequímica — estudo químico de rochas e fósseis
- isotópico — relacionado a variantes de elementos químicosisotópica
- escalamento — ato de subir ou escalar árvores ou rochas
- opositor — dedo capaz de tocar a palma ou outro dedo
- bípede — que anda ou se move sobre duas pernas
- coexistir — existir ao mesmo tempo com outras espéciescoexistiram
- dióxido de carbono — gás produzido por respiração e combustão
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Perguntas para discussão
- Como a diferença de dieta entre A. deyiremeda e A. afarensis pode ter ajudado a coexistirem na mesma região? Explique com razões.
- Que significado tem a ideia de que a marcha bípede assumiu formas múltiplas nos primeiros hominíneos? Dê exemplos de consequências possíveis.
- Que outras evidências ou métodos (além de análises isotópicas) seriam úteis para entender a vida e o crescimento dessas espécies?
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