As zonas costeiras historicamente atraem povoamento denso e grande atividade económica, e hoje uma grande parte da população mundial vive perto do mar. Um estudo global publicado em Nature Climate Change e liderado por investigadores da Sichuan University, com especialistas em sensoriamento remoto da University of Copenhagen, usou observações de luz noturna por satélite combinadas com bases de dados socioeconómicas para mapear movimentos de povoamento em 1,071 regiões costeiras de 155 países.
Os resultados, no período entre 1992 e 2019, mostram que 56% das regiões costeiras recuaram em relação à costa, 16% aproximaram-se e 28% mantiveram-se estáveis. África (67%) e Oceânia (59%) apresentaram as maiores parcelas de recuo. Os autores concluem que o recuo está mais ligado à vulnerabilidade social e à qualidade da infraestrutura do que à frequência histórica de perigos costeiros.
Segundo os investigadores, regiões de baixa renda — especialmente em África e na Ásia — muitas vezes não conseguem recuar porque dependem do território costeiro para meios de subsistência e carecem de alternativas, deixando milhões expostos a inundações e erosão. Países de renda média parecem estar num ponto de viragem: têm capacidade institucional e fundos para apoiar realojamentos, mas ainda não há riqueza suficiente para que a proteção estrutural pesada seja dominante; por sua vez, regiões mais ricas tendem a permanecer próximas ao mar porque podem investir em defesas e sistemas de alerta.
A equipa usou modelagem de efeitos mistos para testar os fatores que impulsionam os movimentos e encontrou que uma melhoria de 1% na capacidade adaptativa correspondeu a uma redução de 4.2% na velocidade de recuo, e um aumento de 1% na proteção estrutural correspondeu a uma redução de 6.4%. Os autores observam, por fim, que dados de luz noturna podem falhar em captar padrões de povoamento em locais com eletrificação limitada e pedem mais estudos para refinar o entendimento e orientar um planeamento costeiro proativo.
Palavras difíceis
- povoamento — assentamento ou presença de pessoas numa área
- sensoriamento remoto — obtenção de dados à distância por satélite
- vulnerabilidade — condição que aumenta risco às pessoas ou bensvulnerabilidade social
- infraestrutura — conjunto de instalações e serviços públicos básicos
- subsistência — meios necessários para sobreviver e ganhar rendimento
- realojamento — mudar pessoas para outro local de residênciarealojamentos
- capacidade adaptativa — habilidade de ajustar-se a mudanças e riscos
- proteção estrutural — defesas físicas construídas contra perigos naturais
- luz noturna — iluminação visível à noite detectada por satélite
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Perguntas para discussão
- Que desafios sociais e económicos impedem o recuo em regiões de baixa renda? Dê exemplos citados no texto e outros que conheceres.
- Como as diferenças de renda entre países influenciam as estratégias mencionadas no artigo (realojamento versus proteção)? Explique com base no texto.
- Que limitações do uso de dados de luz noturna os autores apontam? Como isso pode afetar o planeamento costeiro e que medidas poderiam melhorar o entendimento?
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